Dezanove dias úteis
Ah, Setúbal! A terra de Bocage e do choco frito! Que pena não ter tempo para uma visita como deve ser, nem à cidade nem à serra aqui ao lado. Mais uma visita que fica adiada mas não esquecida.
Saio à procura da estação de caminho de ferro (já ninguém lhes chama "caminhos de ferro", pois não?) e como o comboio é só daí a um pedaço aproveito para lanchar. À saída da estação encontro perdido no asfalto aquele que viria a tornar-se, por um dia apenas, a mascote da viagem.
A viagem de comboio foi feita sem nada digno de nota, apenas o facto de as estações e o próprio comboio serem diferentes do que eu estou habituado. E claro, a paisagem ao pôr do sol é também um ponto a favor desta viagem, que as minhas pernas também agradecem.
No barreiro tenho agora de apanhar o cacilheiro para o terreiro do paço. Supreende-me o tamanho e confusão da doca e imagino o que será ter de fazer esta viagem diariamente, saltando entre uma margem e a outra de um rio que mais parece separa dois mundos bem diferentes.
Tinha acabado de estacionar a bicicleta dentro do barco e preparava-me para desfrutar do passeio quando um rapaz vem falar comigo. Queria saber que viagem eu estava a fazer, porque ele também estava a pensar fazer uma viagem de bicicleta em autonomia e queria algumas dicas. Rapidamente percebemos que tínhamos algo mais em comum que a vontade de viajar de bicicleta: o rapaz estava já no 2º ano de eng. informática e também ele não estava muito contente com o curso e o rumo previsível que a vida> ia tomar. Acabamos por falar de tudo isto e mais algumas coisas, e a viagem que deveria ser um pouco demorada passou a correr, ainda a conversa ia a meio.
E eis que ao fim de 19 dias chego à praça que em outros tempos foi também de partidas e chegadas de viajantes: o terreiro do paço. Houve alturas em que pensei que não seria capaz de cá chegar e agora que cá estou não sei como fui capaz de pedalar tanta estrada. Estou contente e triste por aqui estar: é bom voltar aos confortos de uma casa e de alguma normalidade, mas por outro lado sinto já o peso da rotina que aí vem e a falta de dormir num sítio diferente a cada noite.
A praça está cheia de gente, mas ninguém com quem eu queira partilhar esta conquista. Não fico triste, mas tenho pena porque as alegrias são melhores partilhadas. Sento-me um bocado e não tenho de esperar muito tempo até o telefone tocar - estavam atrasados, mas vinham a caminho! Tirou-se a foto da praxe: Eu, a Viki, a Sónia e o Pedro. Partilharam-se algumas histórias rápidas e combinou-se novo encontro com mais tempo. Agora era só subir a avenida e virar para a rua que é sempre solarenga.
Chego a casa, estaciono e descarrego a baca. Foi valente, nem um único furo ou problema mecânico, aguentou comigo e mais alguma coisa e foi a minha companheira de aventuras. Agora é tempo de descansar, ela e eu. Amanhã volto ao costume dos dias úteis, mas nem por isso melhores que estes dezanove.