
Estava calor, a hora de almoço chegava como um comboio à hora marcada e havia ainda muita estrada pela frente. Por esta altura estou um pouco atrasado em relação ao planeado e é preciso tomar uma decisão difícil: não vou visitar o Marvão. Dizem-me maravilhas do sítio, mas dizem-me também que há uma estrada íngreme para ali chegar. É motivo suficiente para alterar o percurso e partir a galope para Portalegre.
OK OK, aquela expressão "a galope" no parágrafo anterior foi "injectada" de propósito para fazer referência à imagem que começa este texto: o velhinho cavaleiro dos CTT, de corneta na mão e capa ao vento, que encontrei em Portalegre. No fundo, o símbolo dos viajantes do antigamente, esses sim verdadeiros heróis da estrada, batendo km após km ao sabor da correspondência alheia. Eram os portadores de notícias, boas e más, e a sua visita tantas vezes era aguardada por gente angustiada, de coração nas mãos.
Eu chego a Portalegre, não com o coração nas mãos mas com o estômago às costas. Era muita a fome que eu tinha e, não estivesse eu ainda "recém-chegado" ao Alentejo, não tive como resistir a almoçar umas poderosas migas com coentros à Alentejana. Depois de tal repasto já se adivinhava o que ia acontecer: sentar-me à sombra do jardim abrigado do calor e rebolar na relva na já costumeira sesta do viajante. Esta com a particularidade de ter envolvido um jogo de sombras, com elas a fugir de mim, eu atrás delas e o sono aos trambolhões pelo meio.

Estava, de facto, muito quente o dia. Demasiado quente. O breve passeio por Portalegre fez-se em ritmo pachorrento, mais por teimosia do que por gozo, tal era a violência de andar na rua. Felizmente o caminho para Monforte fazia-se sem grande dificuldade e, já com a tarde adiantada, com um clima ameno e mais convidativo à pedalada.
As intermináveis rectas (ou serão avenidas) de alcatrão, rodeadas de planícies e polvilhada de árvores, compunham esta tela do que é o Alentejo. Chego ao largo de Monforte e quando me preparava para ir em direcção à urbe avisto aquela que, viria a descobrir mais tarde, tinha sido uma praia fluvial urbana, ideal para o verão e dias de calor intenso que convidavam ao descanso junto da água. No entanto esta praia estava abandonada, deixada por conta de um rebanho de ovelhas que por ali pastava e que debaixo daqueles casacos lanzudos não se pareciam chatear por ir à praia.
A dita praia, cuja erva seca em tempos havia de ter sido um simpático gramado, tinha também um barzinho de madeira. Fechado a cadeado, claro está, mas com umas mesas/cadeias de merendas em cima do estrado de madeira e debaixo da madeira do tecto. Parecia-me o sítio ideal para cozinhar e jantar confortavelmente e também para acampar, ao abrigo de algum curioso passante na estrada. Ali estacionei e pousei a trouxa.

A água da praia estava suja e tíbia. O cheiro impestava o ar e por isso não admira que as ovelhas não se aproximassem. Fui vê-las de perto. Ali mais adiante andava a "pastora" que com um pequeno mas enérgico cão as tentava manter num só rebanho. Meti conversa. Em tempos esta praia fluvial tinha sido a alegria dos verões passados em Monforte, um escape do calor sufocante do verão e um chamariz para os poucos emigrantes que ainda ali voltavam. Infelizmente, por erro ou burrice da autarquia, o investimento que foi ali feito deu nisto e agora parece que já nem os emigrantes vêm.
Estava na hora de arrumar aqueles presuntos lanzudos e eu pronto para cozinhar um belo jantar. Lamentei a minha sorte de, por estar a água naquelas condições, não poder dar uma banhoca ao fim de um dia a pedalar. Não seja por isso, temos uma mangueira ali no quintal que você pode usar à vontade. Com mil raios, um banho de mangueira! Ia ser uma nova experiência e logicamente aceitei!
Depois de algumas tentativas para conseguir segurar na mangueira (da água!) ao mesmo tempo que me ensaboava e, sem perder o equilíbrio para não me sujar os pés na terra do chão, esquecia de como estava fria a água, lá consegui tomar o mais original banho da viagem. Agradeci a boa vontade e atirei-me aos meus cozinhados, feitos à luz do fogão e da lanterna.
Foi sem dúvida um fim de dia em cheio. E uma noite em que me deitei mais fresquinho, graças à bela da mangueirada.