A despedida...

pronto, exactamente um ano após o término da viagem, eis que chega ao final o blog. Mas embora esta viagem tenha terminado em Lisboa, pode ser que seja só o princípio de outra(s) viagem(ens) maiores, em distância e vivências. Talvez haja novidades em breve ;)

Antes de terminar tenho alguns agradecimentos imperativos a fazer:
  • à família (papai, mamãe e mana) que, com um misto de preocupação, paciência e carinho lá vão aturando as minhas viagens e devaneios;
  • aos anfitriões ao longo da viagem - devidamente mencionados ao longo dos posts - e a todos os outros que embora aqui não figurem me ajudaram ao longo do caminho;
  • à Escrever Escrever, à Katja, ao Rui e aos restantes colegas do curso de escrita de viagens, pelos fins de tarde a brincar com as palavras e as viagens;
  • ao Paulo, ao Carlos e ao Jorge, ao Gonçalo e a todos os outros viajantes que inspiram e alimentam o bichinho de querer conhecer o mundo;
  • aos amigos que, mesmo longe, acompanharam e viveram a viagem diariamente, dando motivação, notícias e horas de conversa ao telefone quando era preciso entreter os km na estrada que às vezes pareciam não ter fim;
  • a todos os que acompanharam este projecto, via internet, TV, jornal ou conferência, em directo ou em diferido, porque se é bom entregarmo-nos sozinhos à estrada, também é bom ter alguém para partilhar os km que se levam nas solas.
Por fim, deixo-vos a apresentação que fiz na conferência do bicycle film festival, no dia 8 de Outubro de 2010. É uma espécie de resumo do que foram estes 21 dias, em que cada slide vale um serão de histórias.

Dezanove dias úteis

Ah, Setúbal! A terra de Bocage e do choco frito! Que pena não ter tempo para uma visita como deve ser, nem à cidade nem à serra aqui ao lado. Mais uma visita que fica adiada mas não esquecida.

Saio à procura da estação de caminho de ferro (já ninguém lhes chama "caminhos de ferro", pois não?) e como o comboio é só daí a um pedaço aproveito para lanchar. À saída da estação encontro perdido no asfalto aquele que viria a tornar-se, por um dia apenas, a mascote da viagem.

A viagem de comboio foi feita sem nada digno de nota, apenas o facto de as estações e o próprio comboio serem diferentes do que eu estou habituado. E claro, a paisagem ao pôr do sol é também um ponto a favor desta viagem, que as minhas pernas também agradecem.

No barreiro tenho agora de apanhar o cacilheiro para o terreiro do paço. Supreende-me o tamanho e confusão da doca e imagino o que será ter de fazer esta viagem diariamente, saltando entre uma margem e a outra de um rio que mais parece separa dois mundos bem diferentes.

Tinha acabado de estacionar a bicicleta dentro do barco e preparava-me para desfrutar do passeio quando um rapaz vem falar comigo. Queria saber que viagem eu estava a fazer, porque ele também estava a pensar fazer uma viagem de bicicleta em autonomia e queria algumas dicas. Rapidamente percebemos que tínhamos algo mais em comum que a vontade de viajar de bicicleta: o rapaz estava já no 2º ano de eng. informática e também ele não estava muito contente com o curso e o rumo previsível que a vida> ia tomar. Acabamos por falar de tudo isto e mais algumas coisas, e a viagem que deveria ser um pouco demorada passou a correr, ainda a conversa ia a meio.

E eis que ao fim de 19 dias chego à praça que em outros tempos foi também de partidas e chegadas de viajantes: o terreiro do paço. Houve alturas em que pensei que não seria capaz de cá chegar e agora que cá estou não sei como fui capaz de pedalar tanta estrada. Estou contente e triste por aqui estar: é bom voltar aos confortos de uma casa e de alguma normalidade, mas por outro lado sinto já o peso da rotina que aí vem e a falta de dormir num sítio diferente a cada noite.

A praça está cheia de gente, mas ninguém com quem eu queira partilhar esta conquista. Não fico triste, mas tenho pena porque as alegrias são melhores partilhadas. Sento-me um bocado e não tenho de esperar muito tempo até o telefone tocar - estavam atrasados, mas vinham a caminho! Tirou-se a foto da praxe: Eu, a Viki, a Sónia e o Pedro. Partilharam-se algumas histórias rápidas e combinou-se novo encontro com mais tempo. Agora era só subir a avenida e virar para a rua que é sempre solarenga.

Chego a casa, estaciono e descarrego a baca. Foi valente, nem um único furo ou problema mecânico, aguentou comigo e mais alguma coisa e foi a minha companheira de aventuras. Agora é tempo de descansar, ela e eu. Amanhã volto ao costume dos dias úteis, mas nem por isso melhores que estes dezanove.

 

A última onda

Último dia de viagem, quem diria que ele haveria de chegar! O banho de hoje já vai ser tomado no oceano, talvez por essa motivação o trajecto de grândola até à praia do carvalhal se tenha feito a bom ritmo. Mas a praia não se mostra logo, sente-se que ela já está próxima mas é preciso procurar e pedalar até ela. Finalmente, um mergulho de mar.

Começava a chegar a hora do almoço e embora pudesse ficar ali por uma das casas junto à praia, achei mais justo experimentar um restaurante um pouco mais afastado - o restaurante onda. Em boa hora o fiz, porque aquilo não era só um restaurante, era o projecto de vida de um jovem casal que ali tinha decidido construir o seu sonho de ter uma casa acolhedora com uns poucos quartos hospitaleiros, um restaurante para carinhosamente alimentar o corpo e um atelier de pintura e outras artes para cultivar o espírito. 

De repente tinha à minha frente um delicioso almoço e 2 filhos pequenos, todos "aviados" pela mesma super-mãe que ainda arranjou tempo para ficar um pouco comigo à conversa. Ficou a promessa de um retorno ao carvalhal e ao restaurante. Até porque a comporta já é demasiado trendy e mainstream. O carvalhal, esse sim, é a next big thing.

Depois de almoço a viagem seguiu em direcção à comporta, este sim terreno já conhecido deste que vos fala. Avanço em direcção a tróia, mas a distância entre ambas teima em ser maior do que as estimativas e os mapas pareciam indicar. Tinha de me despachar se queria embarcar a baca à borla no ferry. Para isso tinha de chegar lá antes das 17h. O que vale é que aqui o terreno é plano, e por isso com uma dose mais que razoável de esforço, a missão foi cumprida.

Também esta viagem de ferry já tinha sido feita, mas não deixa de continuar a valer a pena. As águas sadinas têm de facto um encanto especial, basta não olhar para a aberração que são as chaminés ao largo de Setúbal. O ferry atraca e, um por um, todos os veículos são descarregados.

Estava terminada a viagem de bicicleta, agora faltava só mais uma batota de comboio e outra de cacilheiro para chegar ao destino.

Prato do dia: javali estufado

Já não é possível passar um dia sem um mergulho numa barragem ou albufeira. Como a barragem do Alvito ainda está a ser pensada, socorri-me da barragem de odivelas e não fiquei nada mal servido.

O sol já escaldava às 11h da manhã e por isso o mergulho prolongou-se durante algum tempo. Às tantas, do outro lado da margem, vejo chegar uma pickup carregada e estranhei. Estacionaram junto à água, descarregaram o "embrulho" e mesmo ao lado deste tapete de natureza atearam fogo aos despojos de que alguém já não precisava. A coluna de fumo erguia-se até bem alto e na minha cabeça só passavam várias imagens de métodos de tortura para presentear aqueles criminosos.

Ainda mal recuperado deste episódio voltei a fazer-me à estrada. Agora esperava-me mais uma tirada penosa, sob um sol impiedoso e as estradas vazias, intermináveis eram um teste à minha resistência. Quase 3h depois entro no distrito de Setúbal e, ao chegar a santa margarida do sado, encosto num restaurante à margem da estrada, num desvario de fome e sede.

Foi aqui que pela primeira vez comi javali. Além da curiosidade para experimentar o prato, movia-me uma prometida dose de boa carne que me desse força para o resto do caminho até Grândola. Nunca imaginei que me chegasse à mesa semelhante pratada, com alguma cenoura a disfarçar só para não parecer tão mal. Delicioso não será adjectivo suficiente, lágrimas não haveriam para chorar por mais. Por estas e por outras todo aquele porco selvagem desapareceu do meu prato e abrigou-se no meu estômago, o que provocou duas reacções muito intensas: uma imensa felicidade e uma ainda mais imensa sonolência.
Ainda tentei pegar na bicicleta para me fazer ao caminho, mas só o suficiente para andar umas centenas de metros antes de me largar à sombra de uma árvore, completamente derrotado por tamanho repasto e com o tráfego (camiões incluídos) a passar a um par de metros das minhas solas já gastas.

Tive de ir buscar forças não sei aonde (o javali por esta altura já tinha reincarnado noutra vida) para me levantar e pedalar aqueles miseráveis 22km até Grândola. Lisboa já estava a pouco mais de uma centena de km e quase pelo mesmo preço também ia ao Algarve. Houvesse mais tempo para a viagem e mais força nas canetas e a história seria outra. Mas na realidade esta foi a história de como se gastou duas horas e meia para, a uma média vergonhosa, alcançar a vila morena.

Bem podia ser a terra da fraternidade que eu só me queria deitar ao comprido para daí tornar a levantar passado um ano. Estes dias todos na estrada fizeram o seu estrago e por esta altura o desejo de acabar a viagem ia mais no sentido de terminar com o sofrimento do que propriamente com o cumprir do projecto.
O bom disto é que, por muita desmotivação que se acumule à medida que os kms (não) avançam, o gozo de chegar ao destino, comer uma boa refeição e dormir uma boa (em nº de horas, não em conforto) noite de sono rapidamente faz esquecer as maldições rogadas no calor do asfalto e do momento.

Esta noite só quero mesmo um cantinho para abrir a tenda e arrumar-me lá dentro. Pouco me importa que seja numa espécie de parque de estacionamento de terra batida, junto a uma zona residencial, com cães e outros bichos a rondarem a tenda. Esta noite só quero fechar os olhos, pensar que daí a 24h haveria de estar a dormir na minha saudosa e confortável cama alfacinha, e sentir já a angústia e as saudades de umas férias diferentes e sem dúvida inesquecíveis que estão a acabar.

Duas de treta e uma de bola

O almoço foi reforçado e, à falta da sesta, a viagem até Portel foi feita em ritmo meio sonolento.

A vila, fundada no séc. XIII, foi uma agradável surpresa. À entrada uma igreja capta a minha atenção e decido entrar. Ali sou abordado por um rapaz que se apresenta como sendo um portelense estudioso da história e património da região. Está em regime de voluntariado e, com um espírito verdadeiramente voluntarioso, conta-me a história da igreja - a lenda da senhora da lagoa que em tempos existiu e sobre a qual esta igreja está construída - e fala-me ainda da importância que Portel teve para algumas ordens religiosas (é incrível o número de igrejas e capelas de que há registo aqui) e de como há rumores da existência de passagens subterrâneas que ligam o convento das freiras e o mosteiro dos frades. Nada como uma historinha de frades e freiras com um bocadinho de pimenta para espevitar o interesse do turista!

Seguindo o conselho do meu guia vou até à santa casa da misericórdia de Portel, instituição com mais de 500 (!) anos. Ali peço para visitar uma das igrejas mais antigas da vila que normalmente está fechada ao público devido ao seu estado de degradação. Depois de alguma insistência e um ou outro sorriso e piscar de olho lá consigo que uma das funcionárias me leve até lá. A igreja está de facto velha mas tem uma alma muito própria. Percebe-se ali o peso do tempo e contam-se histórias de tempos longínquos e já perdidos na memória.
No caminho de volta sou ainda convidado a conhecer as instalações da santa casa e ali enterneço-me pelo convívio salutar entre novos e velhos, uns numa brincadeira pegada, outros pegados aos bancos de jardim, à sombra da folhagem das árvores. É mais um dia que passa, a somar aos mais de 180 mil que estas paredes já acomodam.

Não consigo deixar de pensar nisto: estou na neverending road para Viana, a do Alentejo. Na verdade parece que tenho de pedalar a distância que vai até à do Castelo para lá chegar, e por mais que pedale ainda há-de faltar mais um bocado até ao meu destino.
Quase não se vê movimento na estrada. Um carro aqui e ali, de vez em quando. Às tantas um par de ciclistas de estrada, com outras montadas e ligeireza que eu não tenho. É preciso não desanimar, até porque à minha espera hei-de arranjar um belo jantar para premiar o esforço.

É preciso ter algum azar, o castelo (um dos mais notáveis, de estilo gótico ao que sei) que tanto queria visitar está fechado para obras e não abrirá tão cedo. Ainda que eu viesse a horas decentes não me adiantava de nada. Resta-me ficar com uma foto do exterior, já ao cair do pano.
Assim sendo, o meu interesse pela vila resume-se a um bom jantar. E como esta é já a etapa que contabiliza mais km desde o início da viagem, porque não fazer mais uma incursão nocturna e ir dormir ao Alvito? Fica a uns meros 10km e com sorte consigo acampar mais uma vez junto à barragem.

Chego ao Alvito e dou uma volta de reconhecimento do território. Tenho de procurar um sítio para assentar arraiais que não chame muito a atenção e que seja resguardado, mas não parece haver nenhum metro quadrado candidato a isso.
Enquanto vou vagueando pelas ruas quase desertas passo por um simpático casal de meia idade - o Sr. Zé e a D. Etelvina - e peço-lhes informações sobre algum parque de campismo ou local onde possa acampar. Rapidamente a conversa ganha corda e às tantas já estamos a falar da qualidade de vida que se tem ali, de como há cada vez mais famílias com uma vida perfeitamente estabilizada e que emigram de Lisboa para se instalarem ali, onde não falta nada... a não ser emprego. E como é uma pena que uma terra que tem tanto para oferecer veja os seus filhos serem forçados a sair dali, para ir para Évora, Beja ou Lisboa se querem algo mais para o seu futuro.
Conversámos durante não sei quanto tempo mas estava a ficar tarde, para eles e para mim, e despedimo-nos da mesma forma despreocupada como nos encontrámos. Foi mais uma conversa que fica na memória.

Estava já a ficar sem opções e até equacionei a possibilidade de pedir guarida no quartel dos bombeiros. Mas ali à frente havia um ringue de futebol e ao lado algum arboredo que, embora à margem da estrada, estava algo resguardado. Pareceu-me bom o suficiente.
Tinha já tudo preparado para me arrumar dentro da tenda, quando uma bola vem ter junto de mim. Não resisti e esqueci o cansaço. Levei a bola aos jovens jogadores e disponibilizei-me para ser o guarda-redes enquanto os craques afinavam a pontaria.
Lembrei-me daquelas noites de verão que terminavam sempre no campo do Louredo, com o corpo suado, a adrenalina da competição e a alegria de uma noite em cheio, com os companheiros de bola. Foi bom voltar a ser puto e jogar à bola.
Não conseguia imaginar melhor fim de noite, depois de duas de treta e uma de bola.

Ao lago da barragem

Sinto que não estou sozinho no meu acampamento. Será que alguém substituiu a campainha do despertador por vários badalos?
Não, é apenas um pequeno rebano de cabras e ovelhas a pastar junto à água, enquanto o pastor olha o tempo passar mais ali adiante. Achei piada à companhia e fui até junto das minhas novas amigas que, indiferentes à minha presença, continuavam na sua vidinha. Continuei junto ao lago mais um pedaço, conseguia ver agora a extensão do imenso mar de água. Atrás de mim uma ou outra casa ali largada e, à excepção do pastor que já era um pontinho lá ao longe, nem sinal de humanidade. Depois de um inadiável momento de grande comunhão com a natureza, mais um mergulho/banhoca para começar bem o dia!

Já arrumada a casa dou novamente um salto à aldeia da Luz para, agora à luz do dia, conhecer uma das mais famosas aldeias de Portugal. Infelizmente o museu da luz está fechado, terei de cá voltar numa próxima visita. Mas ali ao lado um par de senhoras limpa a capela e, depois de garantir que não incomodava, entro para uma breve visita. Da aldeia não tenho muito mais a contar, esperava encontrar aqui mais histórias e marcas de uma população que teve de se deslocar para escapar à subida das águas. Mas certamente que uma visita ao museu e uma conversa despreocupada com um habitante local serão capazes de me satisfazer a curiosidade. Para uma próxima.

Para chegar junto da barragem propriamente dita tinha de contornar o grande lago, tarefa que acabou por se revelar mais extensa e cansativa do que imaginava. O tempo quente e a estrada um pouco sinuosa, a acompanhar o recortado da água, passando por um par de aldeias, fez com que demorasse mais de 3 horas a chegar ao gigante de betão, mas aqui chegado... é impressionante! 

Não me recordo de ter visitado uma barragem com um paredão tão grande (provaelmente até visitei mas, como digo, não me recordo) e o facto de estar perto da cota máxima apenas a torna mais impressionante... e assustadora. Sem entrar em considerações de engenharia (que, sejamos francos, também não domino assim tão bem - haverá malta de civil que olharia para isto com outros olhos), acho incrível o poder do betão para segurar toda aquela massa de água. Tudo aqui tem uma escala maior do que aquilo que estamos habituados a ver e é inacreditável como a própria formação do terreno permitiu que com uma "pequena" barragem se construísse o maior lago artificial da Europa, com 250 km².

Muito se falou desta barragem, muitos avanços e recuos, interesses económicos e estratégicos, mas a verdade é que a barragem e o lago cá estão. E se a barragem, depois de tantos atrasos ao longo de décadas, encheu rapidamente em virtude das fortes chuvadas que se registaram pouco depois do encerrar das comportas, a verdade é que o alqueva ainda parece atrasado em relação aos grandiosos planos que para esta região se traçaram. 

De notar ainda que muita da minha curiosidade poderia também encontrar resposta no centro de informação do alqueva, aqui ao lado da barragem, mas como era já hora de almoço a prioridade foi outra e assim é mais um ponto de interesse a juntar à futura visita à região.

Uma montanha russa em linha recta

Acordo, mas parece que acabei de entrar num sonho. À porta da minha tenda tenho um enorme tapete de água e à minha espera uma banheira XXL para mergulhar.
O frio da água dá-me a certeza de já estar acordado e a rotina de arrumar a casa e colocá-la "às costas" traz-me de volta à terra. Hoje à noite hei-de adormecer novamente com a água à porta, mas desta vez já no Alqueva. E aí quem sabe que sonhos me pode trazer.

Hoje é o dia em que chego à infeliz constatação de que o Alentejo não é só planície. Aliás, nesta parte do Alentejo parece que um terramoto passou pela estrada, tal é a rugosidade do terreno que me leva num infindável sobe e desce.
Estou quase a acabar de subir mais uma colina e imagino uma estrada recta e plana a perder de vista do outro lado. Mas aquilo que encontro é nova descida e já ali à frente uma subida ainda mais dolorosa do que esta última.

Durou 3 horas esta tortura e ao chegar a Reguengos de Monsaraz e descobrir a piscina municipal a minha decisão foi imediata: tirar parte da tarde para recuperar forças da porrada que tinha acabado de levar. É certo que esta paragem iria atrasar um pouco a chegada ao Alqueva, mas com mil raios!, no estado em que eu já vinha, não parar havia de trazer pouco adianto. Uma breve incursão pelo supermercado antes garantia que teria comida e bebida suficiente para não ter de levantar o rabo durante umas boas horas e com o portátil carregado é altura de recuperar o atraso do blog. A piscina é um lugar concorrido, não fora o facto de só se estar bem junto à água. Perdi a conta ao tempo que por ali fiquei.

Custa deixar a piscina e montar novamente na baca, mas a perspectiva de passar a noite em Reguengos também não me agrada, e o grande lago está já ali ao largo. Porra, tenho de cortar a barba!

O sol está a dar as últimas (e eu também), mas esta visão do pôr-do-sol no lago vale o esforço todo deste dia. Ali à frente vejo já a silhueta de Mourão e à volta água, e mais água.

A ponte sobre o Guadiana parece não acabar nunca, mais uma volta antes de entrar em Mourão e finalmente o castelo, mesmo a tempo de ainda ter luz para umas fotos e apreciar a vista.

Está na hora de jantar e dadas as poucas alternativas, resolvi hoje tratar-me bem e comer num restaurante um bocado mais carote e "empipizado" do que tem sido regra nesta viagem.
Estaciono a viatura e cumprimento quem está pacatamente sentado à porta da casa. Meto conversa, pergunto se aqui vou encontrar um valente jantar para retemperar forças, pois foi uma jornada longa e cansativa.
Desconfiada, diz-me a minha anfitriã "eu estou a reconhecê-lo de algum lado! você não é aquele rapaz que aqui há uns dias estava em Bragança a viajar por Portugal de bicicleta?". Pois, parece que sou. Já viu só de onde eu vim? "E você vem sozinho? Sem mais ninguém, nada, nem um carro de apoio?". Comecei a rir-me e apontei para a bicicleta: "Carro de apoio? Tudo o que eu preciso está ali!". A expressão da cara dizia tudo, impávida que estava "eu sempre pensei que você tivesse um carro de apoio...".

O jantar saiu um pouco do orçamento habitual, mas valeu o que custou. A comida estava deliciosa (hmm, que belo gaspacho!) e a casa em si tinha sido pensada e feita com carinho. Quem diria que numa vila rústica como Mourão, nas bordas deste pequeno mar interior, seria capaz de encontrar um restaurante com tão bom gosto?

Despeço-me e, já noite feita, sigo em direcção à nova aldeia da luz, a tal que ficou famosa por se tornar na atlântida do alqueva, obrigando a mudar de sítio edifícios, pessoas, vidas e mortos.

Não se avista vivalma na aldeia. Apenas os candeeiros fazem juz ao nome e o casario bem arranjado rapidamente acaba. Vou em direcção à água, ali hei-de encontrar poiso para a minha tenda.
Já ando às escuras na estrada, apenas a trémula luz da bicicleta a indicar-me o caminho. Pelo meio de algumas árvores ouço o vento chapinhar na água, paro a baca, encontro um sítio relativamente abrigado do vento e da estrada e assento arraiais.

Luz é coisa que não há aqui. Há vento, muito. E todo um lago enorme aos meus pés.

Até amanhã.

Lusii fecit

Adega cooperativa de Borba

Primeira imagem que me vem à cabeça quando ouço falar de Borba: bom vinho alentejano. Primeira imagem ao chegar a Borba: a adega cooperativa. Tudo faz sentido.

Borba é uma vila cidade pequena, mas com uma agitação própria de uma terra que gira em torno da produção e comércio do mármore e vinho, sendo a mais densamente povoada do alentejo central.
Mantém um charme próprio de ruas e ruelas movimentadas, o sempre presente Café Central e as muralhas de um castelo que conta estórias à história desde o longínquo Tratado de Alcanises.

O calor não dava tréguas e, vendo tantas esplanadas ali ao redor, com gente a beber cerveja e a comer caracóis, pensei "uma cervejinha vinha mesmo a calhar". Se bem pensei, melhor fiz, porque não foi uma mas duas "geladinhas" no (digo eu) famoso careca dos caracóis. E realmente lá andava ele, de um lado para o outro, fazendo jus ao nome: o careca levava os caracóis e trazia-lhes a casa com a mesma frequência com que os clientes se refrescavam com as cervejas.
Uma cerveja, no Careca dos Caracóis (Borba)
Saí de Borba e pelo meio das pedreiras fiz o curto trajecto até Vila Viçosa. E é de facto viçosa, a vila! 
Logo à chegada, o monumental Terreiro do Paço (e eu que pensava que o de Lisboa era exclusivo!). As marcas e património dos duques de Bragança são por demais evidentes e o Paço Ducal é um dos melhores exemplos disso.

Ali mais adiante encontra-se o Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e ao lado o castelo, ambos infelizmente fechados dado o adiantado da hora. Circundei o castelo, apreciei a vista e imaginei lutas antigas, este fosse agora seco cheio de água e corpos tombados, ouvi o som de espadas a degladiar-se e os suspiros das princesas do alto da torre. Mas a realidade há-de ter sido bem diferente dos contos de fadas, princesas e reis e aqui junto deste castelo deve ter penado muita gente, em contraste com a sumptuosidade real de quem aqui viveu, não imunes às suas próprias tragédias e traições. Longe vão os tempos de glória dos Calipolenses e agora tudo o que resta é um imenso palácio demasiado vazio, em forma de cidade. 
À saída de Vila Viçosa passo pelo Teatro Florbela Espanca, evocando uma das maiores poetisas deste Portugal e filha da terra, e como que embalado pela poesia sigo viagem até ao Alandroal, que alcanço ao morrer do dia.

No Alandroal a imensa muralha salta à vista de qualquer um e à minha em particular: com o dia a dar as últimas, a pedra daquela imensa parede incandesce e torna-a ainda mais volumosa e impenetrável do que já parecia. É já quase demasiado tarde para visitas e fotografias, por isso rapidamente dou uma volta ao monumento apenas para descobrir que além da parede não há muito que ver.
Acerco-me agora do centro, pequeno e tranquilo: é hora de jantar. Encontro um restaurante pequeno e caseirinho, faço os telefonemas à família e as contas à vida. A viagem por hoje ainda não terminou - mais alguns quilómetros e vou dormir na barragem de Lucefécit, curioso nome, originário de lusii fecit, pois foram os lusos que assim fizeram.
Barragem de Lucefécit, na manhã seguinte
A viagem nocturna ajuda a compensar os kms que se fazem mais devagar de dia, mas traz também os perigos de não saber o que está um palmo à frente do rosto gelado pelo ar frio da noite. Cortando por um caminho quase offroad eis que chego a um largo onde estacionam alguns carros e se escutam algumas vozes. Ali adiante o reflexo lunar indica-me que cheguei ao meu destino desta noite, mais uma pernoita em hotel muitas-estrelas.

Encontro uma árvore distante dos carros e das conversas que só se podem ter em cenários destes, para onde foge a juventude e as memórias de dias bem vividos e noites bem passadas. Tento passar despercebido, mas marcando o meu território caso algum involuntário visitante se aproxime. Monto o meu ninho, fico à escuta, imagino o que esteja ali fora.

A noite acalma, os carros deixam-me sozinho, agora a barragem é só minha. Amanhã é mais uma grande surpresa.

Pequena lição de humanismo

O objectivo era começar o dia cedo para escapar ao calor que nos últimos dias tornava a estrada, entre as 9h e as 19h numa estufa a céu aberto. Depois de cozinhado e tomado o pequeno-almoço, lavada a respectiva louça e arrumada a "casa" recebi a visita de uma simpática senhora e filhos, todos de carnaxide. A dita senhora tinha nascido na terra, mas levada ainda criança para os arredores da grande cidade e, por isso, não se considerava monfortense, embora gostasse de cá voltar. Aliás, só não voltava de vez porque a vida já tinha ganho raízes lá longe e monforte era terra que já não interessava a muita gente, excepção feita a uma comunidade de ciganos, romenos, moldavos e que tais, que aos poucos ia crescendo.

Com tudo isto quando me fiz ao IP2 já o termómetro psicológico marcava temperaturas demasiado elevadas e por isso a paragem no modelo ali mais adiante foi inevitável. O supermercado estava movimentado e, depois de estacionar a bicicleta ali à porta para uma incursão rápida à loja, reparei que um grupo de ciganitos ali andava a brincar, com aquele jeito despreocupado das crianças que me agrada mas também com aquela atitude de "eu posso tudo o que me apetece" que nem tanto.

Confesso que senti uma desconfiança crescente em mim em deixar ali a bicicleta sozinha, ainda que apenas por alguns minutos - seria este o preconceito e xenofobia dissimulados que vinha a descobrir nos portugueses nos últimos tempos? seria o medo inconsciente e infundado que tantas vezes nos inibe e atrapalha? Não fiquei descansado e pelo sim, pelo não resolvi pedir a dois polícias que ali andavam que pusessem um olho na bicicleta. Numa passada que me pareceu maior do que desejaria, fui num pé e vim no outro, e ao chegar à bicicleta dei pela falta do capacete e das luvas. Os putos já não andavam por ali e os polícias estavam mais adiante. A minha associação de ideias foi imediata: alguém tinha arranjado um brinquedo novo à custa de um tótó qualquer. Tinha a certeza de ter pousado o capacete e as luvas na bicicleta, pensando que ninguém lhes ia mexer e afinal... será que eu não tinha acabado por os levar comigo para dentro do supermercado "por causa das coisas"? Entrei novamente e dei com o suposto produto do roubo pousado no tapete da caixa e a minha vergonha estampada na testa. Aqui está mais uma boa lição de humanismo para começar o dia.

Chego à notável vila de Estremoz e dou uma volta pelo centro. Chama-me a atenção o edifício onde funciona a câmara municipal, que foi em tempos o convento dos congregados (ou no seu BI completo, o Convento de Nossa Senhora da Conceição dos Congregados do Oratório de São Filipe Nery de Estremoz). Entrei para saciar a minha curiosidade e encontrei uma fantástica colecção de azulejos e outra dos vários presidentes. Também os tectos e o claustro que consegui espreitar eram dignos de nota. A hora de almoço tornou esta visita necessariamente curta: por um lado as visitas ao convento estavam interrompidas para almoço e por outro lado eu próprio precisava dessa mesma interrupção.

Depois de me aconselhar junto da experiência de um habitante local, escolhi um restaurante próximo de um jardim que daria uma bela soneca daí a um bocado. Numa mesa quase ao lado da minha seguia animada um almoço/conversa entre o que viria a perceber ser o presidente da câmara e outros três amigalhaços. A conversa estava animada e, assim como o almoço, era farta e vistosa, pelo que não consegui deixar de ouvir um ou outro episódio. Notava-se claramente quem gravitava em volta de quem, suponho que sejam as afamadas "esferas do poder" a trabalhar, mesmo que a um nível autárquico. Pelos vistos, estes almoços também fazem parte do trabalho e por aqui ainda se faz business as usual. À saída fui interpelado do grupo, tinham-me reconhecido da televisão. Troquei breves palavras, cumprimentos e alguns sorrisos com a pequena assistência, tão certo de ter sido para eles um assinalável fait-divers tanto quanto eles foram para mim.

Depois da soneca pós-almoço fui fazer turismo pela cidade, subi até ao paço real (que é agora pousada) e ali encontrei o que resta do castelo, sob atenta observação da raínha santa, que nele morreu. Depois desta paragem segui caminho para Vila Viçosa e Borba, não deixando de reparar à saída da cidade de um dos seus ex-libris: as pedreiras do famoso mármore branco, que também encontraria mais adiante no caminho. Foi também aqui que o conta-quilómetros da bicicleta decidiu meter a reforma.

Mangueirada

Estava calor, a hora de almoço chegava como um comboio à hora marcada e havia ainda muita estrada pela frente. Por esta altura estou um pouco atrasado em relação ao planeado e é preciso tomar uma decisão difícil: não vou visitar o Marvão. Dizem-me maravilhas do sítio, mas dizem-me também que há uma estrada íngreme para ali chegar. É motivo suficiente para alterar o percurso e partir a galope para Portalegre.

OK OK, aquela expressão "a galope" no parágrafo anterior foi "injectada" de propósito para fazer referência à imagem que começa este texto: o velhinho cavaleiro dos CTT, de corneta na mão e capa ao vento, que encontrei em Portalegre. No fundo, o símbolo dos viajantes do antigamente, esses sim verdadeiros heróis da estrada, batendo km após km ao sabor da correspondência alheia. Eram os portadores de notícias, boas e más, e a sua visita tantas vezes era aguardada por gente angustiada, de coração nas mãos.

Eu chego a Portalegre, não com o coração nas mãos mas com o estômago às costas. Era muita a fome que eu tinha e, não estivesse eu ainda "recém-chegado" ao Alentejo, não tive como resistir a almoçar umas poderosas migas com coentros à Alentejana. Depois de tal repasto já se adivinhava o que ia acontecer: sentar-me à sombra do jardim abrigado do calor e rebolar na relva na já costumeira sesta do viajante. Esta com a particularidade de ter envolvido um jogo de sombras, com elas a fugir de mim, eu atrás delas e o sono aos trambolhões pelo meio.

Estava, de facto, muito quente o dia. Demasiado quente. O breve passeio por Portalegre fez-se em ritmo pachorrento, mais por teimosia do que por gozo, tal era a violência de andar na rua. Felizmente o caminho para Monforte fazia-se sem grande dificuldade e, já com a tarde adiantada, com um clima ameno e mais convidativo à pedalada.

As intermináveis rectas (ou serão avenidas) de alcatrão, rodeadas de planícies e polvilhada de árvores, compunham esta tela do que é o Alentejo. Chego ao largo de Monforte e quando me preparava para ir em direcção à urbe avisto aquela que, viria a descobrir mais tarde, tinha sido uma praia fluvial urbana, ideal para o verão e dias de calor intenso que convidavam ao descanso junto da água. No entanto esta praia estava abandonada, deixada por conta de um rebanho de ovelhas que por ali pastava e que debaixo daqueles casacos lanzudos não se pareciam chatear por ir à praia.

A dita praia, cuja erva seca em tempos havia de ter sido um simpático gramado, tinha também um barzinho de madeira. Fechado a cadeado, claro está, mas com umas mesas/cadeias de merendas em cima do estrado de madeira e debaixo da madeira do tecto. Parecia-me o sítio ideal para cozinhar e jantar confortavelmente e também para acampar, ao abrigo de algum curioso passante na estrada. Ali estacionei e pousei a trouxa.

A água da praia estava suja e tíbia. O cheiro impestava o ar e por isso não admira que as ovelhas não se aproximassem. Fui vê-las de perto. Ali mais adiante andava a "pastora" que com um pequeno mas enérgico cão as tentava manter num só rebanho. Meti conversa. Em tempos esta praia fluvial tinha sido a alegria dos verões passados em Monforte, um escape do calor sufocante do verão e um chamariz para os poucos emigrantes que ainda ali voltavam. Infelizmente, por erro ou burrice da autarquia, o investimento que foi ali feito deu nisto e agora parece que já nem os emigrantes vêm.

Estava na hora de arrumar aqueles presuntos lanzudos e eu pronto para cozinhar um belo jantar. Lamentei a minha sorte de, por estar a água naquelas condições, não poder dar uma banhoca ao fim de um dia a pedalar. Não seja por isso, temos uma mangueira ali no quintal que você pode usar à vontade. Com mil raios, um banho de mangueira! Ia ser uma nova experiência e logicamente aceitei!

Depois de algumas tentativas para conseguir segurar na mangueira (da água!) ao mesmo tempo que me ensaboava e, sem perder o equilíbrio para não me sujar os pés na terra do chão, esquecia de como estava fria a água, lá consegui tomar o mais original banho da viagem. Agradeci a boa vontade e atirei-me aos meus cozinhados, feitos à luz do fogão e da lanterna.

Foi sem dúvida um fim de dia em cheio. E uma noite em que me deitei mais fresquinho, graças à bela da mangueirada.